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Qual é o problema?

21 Janeiro, 2008 · 2 Comentários

“Bons administradores são aqueles que fazem as melhores perguntas,
e não os que repetem suas melhores aulas”

Stephen Kanitz

Um dos maiores choques de minha vida foi na noite
anterior ao meu primeiro dia de pós-graduação em
administração. Havia sido um dos quatro brasileiros
escolhidos naquele ano, e todos nós acreditávamos,
ingenuamente, que o difícil fora ter entrado em Harvard,
e que o mestrado em si seria sopa. Ledo engano. Tínhamos
de resolver naquela noite três estudos de caso de oitenta
páginas cada um. O estudo de caso era uma novidade para
mim. Lá não há aulas de inauguração, na qual o professor
diz quem ele é e o que ensinará durante o ano, matando
assim o primeiro dia de aula. Essas informações podem ser
dadas antes. Aliás, a carta em que me avisaram que fora
aceito como aluno veio acompanhada de dois livros para
ser lidos antes do início das aulas.

O primeiro caso a ser resolvido naquela noite era
de marketing, em que a empresa gastava boas somas em
propaganda, mas as vendas caíam ano após ano. Havia
comentários detalhados de cada diretor da companhia, um
culpando o outro, e o caso terminava com uma análise do
presidente sobre a situação.

O caso terminava ali, e ponto final. Foi quando percebi
que estava faltando algo. Algo que nunca tinha me ocorrido
nos dezoito anos de estudos no Brasil. Não havia nenhuma
pergunta do professor a responder. O que nós teríamos
de fazer com aquele amontoado de palavras? Eu, como
meus quatro colegas brasileiros, esperava perguntas do
tipo “Deve o presidente mudar de agência de propaganda
ou demitir seu diretor de marketing?”. Afinal, estávamos
todos acostumados com testes de vestibular e perguntas do
tipo “Quem descobriu o Brasil?”. Harvard queria justamente
o contrário. Queria que nós descobríssemos as perguntas
que precisam ser respondidas ao longo da vida.

Uma reviravolta e tanto. Eu estava acostumado a
professores que insistiam em que decorássemos as
perguntas que provavelmente iriam cair no vestibular.
Adorei esse novo método de ensino, e quando voltei para
dar aulas na Universidade de São Paulo, trinta anos atrás,
acabei implantando o método de estudo de casos em minhas
aulas. Para minha surpresa, a reação da classe foi a pior
possível. “Professor, qual é a pergunta?”, perguntavam-me.
E, quando eu respondia que essa era justamente a primeira
pergunta a que teriam de responder, a revolta era geral:
“Como vamos resolver uma questão que não foi sequer
formulada?”.

Temos um ensino no Brasil voltado para perguntas prontas e
definidas, por uma razão muito simples: é mais fácil para
o aluno e também para o professor. O professor é visto
como um sábio, um intelectual, alguém que tem solução para
tudo. E os alunos, por comodismo, querem ter as perguntas
feitas, como no vestibular. Nossos alunos estão sendo
levados a uma falsa consciência, o mito de que todas as
questões do mundo já foram formuladas e solucionadas. O
objetivo das aulas passa a ser apresentá-las, e a obrigação
dos alunos é repeti-las na prova final.

Em seu primeiro dia de trabalho você vai descobrir que
seu patrão não lhe perguntará quem descobriu o Brasil
e não lhe pagará um salário por isso no fim do mês. Nem
vai lhe pedir para resolver “4/2 3D ?”. Em toda a minha
vida profissional nunca encontrei um quadrado perfeito,
muito menos uma divisão perfeita, os números da vida sempre
terminam com longas casas decimais. Seu patrão vai querer
saber de você quais são os problemas que precisam ser
resolvidos em sua área. Bons administradores são aqueles
que fazem as melhores perguntas, e não os que repetem suas
melhores aulas.

Uma famosa professora de filosofia me disse recentemente
que não existem mais perguntas a ser feitas, depois de
Aristóteles e Platão. Talvez por isso não encontramos
solução para os inúmeros problemas brasileiros de hoje. O
maior erro que se pode cometer na vida é procurar soluções
certas para os problemas errados. Em minha experiência e na
da maioria das pessoas que trabalham no dia-a-dia, uma vez
definido qual é o verdadeiro problema, o que não é fácil,
a solução não demora muito a ser encontrada. Se você
pretende ser útil na vida, aprenda a fazer boas perguntas
mais do que sair arrogantemente ditando respostas. Se
você ainda é um estudante, lembre-se de que não são as
respostas que são importantes na vida, são as perguntas.

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Esta mensagem pode ser encontrada no site “Contando Histórias”,
no endereço http://www.contandohistorias.com.br/historias/2004262.php

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