Imagine-se o presidente eleito de um país tropical que pretende implementar um plano econômico, do qual foi convencido que irá gerar bons resultados futuros. Esse plano dependerá do confisco da poupança, entre outras medidas impopulares. Na semana da sua posse, você concede uma entrevista. Eis que surge a pergunta- “Sr. Presidente, a poupança do povo corre o risco de ser confiscada?” Responder “sim”, provocaria uma corrida aos bancos e um colapso no sistema financeiro. Responder “não”, coloca-o como mentiroso diante daqueles que depositaram confiança em você. Infelizmente, o final deste dilema conhecemos bem.
Tendemos a nos distanciar de dilemas assim. Porém, no nosso dia-a-dia, seja profissional (que abordarei) ou pessoal, não raramente temos que enfrentá-los.
“Sr. Diretor, atingiremos a meta?” “Sr. Parceiro, ganharemos juntos?” “Sr. Consultor, devo demitir essas pessoas?” “Sr. Gerente, vamos concluir este projeto no prazo e custo previsto?” “Sr. Colaborador, está realmente comprometido com a nossa empresa?” “Sr. Técnico, temos a qualidade que dizemos possuir aos nossos clientes?” “Sr. Candidato, é tão bom quanto diz o seu currículo?” “Sra. Empresa, pode aumentar o meu salário?” “Sr. Profissional, esse fracasso foi responsabilidade sua?”
Poderia citar outros exemplos, mas, creio que esses já são suficientes para a reflexão que proponho.
Segundo o cientista social Max Weber, há duas éticas: a da convicção e a da responsabilidade. A primeira não se importa com as conseqüências e os resultados de sua ação. A segunda toma em conta os defeitos do homem médio e condena qualquer ação que utilize meios moralmente perigosos, como a violência. A ética da convicção não suporta a irracionalidade ética do mundo. O mundo transforma-se, na primazia da convicção, no bem e no mal simplificados.
Se fizéssemos uma enquete entre os leitores deste texto o resultado provavelmente apontaria como vencedora a chamada ética de convicção. Porém, se comparássemos essa mesma enquete com os vários cases de mercado, certamente haveria maior aproximação com a chamada ética de responsabilidade.
Imagine-se agora como gerente de um projeto de desenvolvimento de um novo sistema em uma grande organização, que em tese já está na sua fase final de desenvolvimento, e no qual já se investiu milhares de reais. Você tem duas reuniões, uma com sua equipe técnica, e outra com o seu facilitador no cliente. Na primeira, recebe a notícia que o sistema desenvolvido é uma verdadeira “bomba”, mas, com alguns artifícios, o cliente não vai perceber. Na segunda, seu cliente faz esta pergunta – “Sr. Gerente, receio quanto a qualidade do sistema que contratamos. O que o senhor tem a me dizer a esse respeito? Posso tranqüilizar nossa diretoria que quer cancelar este contrato?” Responder “não”, vai gerar a quebra do contrato e a sua conseqüente demissão. Responder “sim”, cria a possibilidade de prolongar esta situação, sem na realidade alterá-la.
Não tenho a preocupação em saber o que diríamos em voz alta a respeito desse assunto, pois, o que proponho é uma reflexão mais íntima feita diante da imagem refletida no espelho.
Por qual motivo agimos em alguns momentos de maneira contrária à nossa convicção? Digo, “agimos” por supor que todos nós enfrentamos em algum momento das nossas vidas esses dilemas e, eventualmente, tomamos posições que poderíamos agora desejar mudar.
Agimos dessa maneira pois acreditamos que a pena social será alta. Miramos mais nos resultados imediatos, e não nos efeitos das nossas ações. Justificamos isso por razão dos vários riscos que acreditamos correr: “Ser demitido”. “Ser desacreditado”. “Não mandar nossos filhos à faculdade”. “Não ser contratado”. “Perder o contrato”. “Ter menos lucro”. “Admitir o fracasso”.
Cito o filósofo Gusdorf que, quando diz: “O homem não é o que é, mas é o que não é”, não está fazendo um jogo de palavras. Ele quer dizer que o homem não se define por um modelo que o antecede, por uma essência que o caracteriza, nem é apenas o que as circunstâncias fizeram dele. Ele se define pelo lançar-se no futuro, antecipando, por meio de um projeto, a sua ação consciente sobre o mundo.
Não há caminho feito, mas a fazer. Não há modelo de conduta, mas um processo contínuo de estabelecimento de valores. Nada mais se apresenta como absolutamente certo e inquestionável.
Essa condição de certa forma fragiliza o homem. Ao mesmo tempo, o que parece ser sua fragilidade, é justamente a característica humana mais perfeita e mais nobre: “a capacidade do homem produzir sua própria história”.
Pessoalmente, acredito que seja com a nossa biografia que devemos nos responsabilizar. A Ética (aqui escrita em maiúsculo) é uma questão de organização de valores no seu nível mais pessoal. A minha Ética não pode depender da sua. Seja para o bem ou não, agir com Ética é estar disposto a enfrentar as conseqüências (efeitos) das nossas ações.
fonte: http://allegrobgblog.wordpress.com/2008/04/01/etica-conviccao-ou-responsabilidade/


